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A busca pela saúde tem prescrição: mais natureza

A busca pela saúde tem prescrição: mais natureza

Transtorno do déficit de natureza. Já escutou falar sobre esse tema? Não é um termo novo, mas ficou ainda mais em evidência após a pandemia do novo coronavírus e os impactos ocasionados por ela no comportamento e desenvolvimento das crianças durante o isolamento social.

Richard Louv é jornalista, escritor e fundador da organização Children & Nature Network. Foi ele que cunhou, em 2008, o termo "transtorno do déficit de natureza", já naquela época falando dos malefícios de uma educação e crescimento longe de ambientes naturais. Desde então, seu livro “A Última Criança na Natureza” já foi publicado em 20 países e a ele se seguiram uma série de outros livros sobre o tema como o “Vitamina N” – com N se referindo a natureza –, além de iniciativas ao redor do mundo para promover mais tempo de convivência ao ar livre.

O transtorno de déficit de natureza não é um diagnóstico médico, mas é gerado como consequência de uma vida desconectada do mundo natural – comum nas grandes cidades onde se concentra a maior parte da população do planeta. Como diagnóstico médico, o que acompanha o transtorno é o sedentarismo, obesidade e doenças metabólicas como o diabetes e aumento de colesterol, ansiedade, compulsão, déficit de atenção, hiperatividade, entre outras doenças que têm tido sua prevalência cada vez maior ao longo dos anos.

Com a pandemia, as agências de saúde mundiais têm sido categóricas em afirmar que as crianças podem não ter sido afetadas diretamente pelo vírus, mas afetadas de muitas outras maneiras com as interrupções na educação, problemas de saúde mental e aumento da violência doméstica.

No consultório é notória a mudança no perfil das queixas relatadas. Se antes cuidávamos mais de resfriados, diarreias e outras doenças infectocontagiosas, hoje temos que estar atentos a queixas alimentares e comportamentais com especial cuidado para a avaliação da saúde mental.

E quando vamos em busca de soluções de simples implementação é no contato com a natureza que conseguimos encontrar refúgio e remediação. A recomendação pode até parecer singela, mas ganha ares de prescrição médica no momento em que vivemos: buscar a natureza. E os estudos científicos cada vez mais embasam essa prescrição tanto com o intuito de prevenção quanto de tratamento, sendo inúmeros os benefícios para saúde mental, desenvolvimento psíquico e cognitivo.

O documentário “O começo da vida: 2 – Lá fora” também aborda o tema e nos convida a ser agentes de mudança da sociedade, porque, hoje, estar em contato com a natureza é uma questão de escolha. Passamos o dia fechados e conectados às redes e dispositivos – esse é o modelo que estamos oferecendo às próximas gerações, então a decisão de procurar o ambiente natural deve ser racional.

E as discordâncias entre discurso e prática vão além: teremos uma geração que fala sobre desmatamento, agroflorestas, aquecimento global e outros tantos temas de preservação da natureza sem ter tido uma real conexão com o meio ambiente. “É provável que uma criança hoje saiba falar sobre a floresta amazônica, mas não sobre a última vez que explorou alguma mata sozinha ou deitou-se em um campo ouvindo o vento e observando as nuvens”, escreve Louv em seu livro. Para o autor, na educação de nossas crianças, para cada dólar investido em tecnologia, deveríamos gastar pelo menos um no “mundo real”.

Como pediatra, fica aqui, então, a minha prescrição médica: uma rotina de contato com a natureza. Natureza é saúde. Aos pacientes e leitores: continuem contando comigo para atravessarmos essa pandemia da melhor maneira possível.

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