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Esclarecimentos sobre a aprendizagem de alunos Disléxicos

Esclarecimentos sobre a aprendizagem de alunos Disléxicos

As notas baixas e o fraco desempenho escolar são características que, de modo geral, fazem parte na vida escolar de crianças disléxicas (SHAYWITZ, 2006). O reconhecimento precoce das características, as consequências, as soluções e as adaptações pertencem à educação. Só é possível identificar a Dislexia entre aqueles que passaram pelo processo de alfabetização. Sendo assim, é nas salas de aula que a Dislexia se faz presente.

De modo geral, observa-se que muitos professores demonstram certa inabilidade ao conduzirem um processo de alfabetização levando em conta as diferenças. Isto é o que o autor Perrenoud (2001, p.67) chama de indiferença às diferenças. Outros professores estão cientes destas diferenças, mas não possuem o conhecimento específico para saber como conduzir a melhor estratégia pedagógica para diferentes situações. Notam-se muitas críticas dos professores em relação ao “dar conta” de uma sala de aula com tanta heterogeneidade.

Quando tratamos das diferenças entre o aprender e das classificações escolares, uma temática que se destaca é a avaliação. No livro Avaliação, Catani e Gallego (2009) sublinham que a avaliação quando colocada em sistema nacional pode discriminar alunos “fortes” de “fracos” e determinar o destino escolar de alunos “malsucedidos”. Como ficaria o destino acadêmico de alunos com Dislexia? Não seriam os professores os primeiros a poder responder essa questão, assim como os primeiros a poder auxiliar ou até prejudicar esse destino?

O aluno, ao entrar para a escola, tem como objetivo seu sucesso escolar e não o contrário. A partir do momento em que esse objetivo passa a ficar longe de seu alcance, o desânimo e até o abandono escolar podem fazer parte de sua realidade e seu destino se tornará comprometido. O professor pode ser um grande parceiro nesse sucesso, adaptando as avaliações à realidade do seu aluno, assegurando assim o sucesso e não o fracasso deste.

No que diz respeito à avaliação da aprendizagem dos alunos, segundo Shaywitz (2006), todas as informações sobre o indivíduo devem ser consideradas, pois, em muitos casos, a criatividade do mesmo não pode ser medida por testes de múltipla escolha. Existem evidências de que testes padronizados podem não ser confiáveis para análise do desempenho futuro de profissionais.

... Tais resultados podem não selecionar os melhores alunos, e, na verdade, podem estar deixando de fora os alunos que tenham a capacidade não apenas de se graduarem com sucesso, mas também para contribuírem de maneira singular à profissão (SHAYWITZ, 2006, p. 253).

Separar o processo de aprendizagem do processo de avaliação é algo crucial no caso dos disléxicos, pois estes podem aprender, e aprender muito bem, se lhe forem oferecidas oportunidades adequadas (SHAYWITZ, 2006, p. 246). O processo de avaliação correto deve ser a constatação das capacidades do indivíduo e não de suas deficiências.

Todo ser humano aspira por ser reconhecido em sua totalidade, não só por um ou outro aspecto. O valor de seu desempenho habita nessa totalidade, mas, no caso dos disléxicos, estes são avaliados justamente no aspecto que mais possuem dificuldade, prejudicando seu valor perante a sociedade e perante eles mesmos. Isso porque os problemas relativos à leitura interferem na relação com a aquisição e realização de atividades voltadas às demais áreas do conhecimento haja vista que a leitura é condição, muitas vezes, para se realizar a maior parte das demandas escolares.

Os professores acabam por ter que administrar pressões contraditórias, nas quais devem fazer com que o grupo progrida, avance pedagogicamente e para tal acabam por adotar posturas normatizadas, que igualam cada membro do grupo a um modelo, como se todos aprendessem da mesma forma e no mesmo ritmo. Para Anne Marie Chartier (2007), essas pressões acabam por descaracterizar o trabalho do professor, pois

Essas pressões favorecem uma concepção “tecnizada” de seu trabalho, inteiramente mobilizada pela forma, e não pelo conteúdo das leituras, no momento em que seria essencial, entretanto, que ele aparecesse como o mediador cultural autorizado, o leitor experiente, com o qual a classe deveria se identificar (CHARTIER, 2007, p. 161).

Acerca da heterogeneidade da sala de aula, vale a pena ressaltar que alguns recursos utilizados para que os alunos disléxicos aprendam melhor não interferem no aprendizado dos alunos não categorizados disléxicos. Também em relação à heterogeneidade, podemos ainda citar parte da síntese que, ao rever propostas didáticas fundamentadas na perspectiva dos PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais), ilustra bem esta temática:

a) reconhecer a heterogeneidade dos alunos, quanto ao nível de compreensão sobre o que a escrita alfabética nota e sobre como funciona, sendo esta variabilidade relacionada às oportunidades sociais de reflexão sobre a língua escrita; b) propor intervenções específicas para grupos de alunos diferentes e a interação entre aprendizes com níveis próximos (...) (MORAIS, 2006, p. 5).

No entanto, antes de saber o que e como ministrar sua aula para um grupo heterogêneo, no qual estejam inseridos também alunos disléxicos, é importante que os professores saibam da existência da Dislexia, conheçam o que ela representa e qual o seu papel neste cenário.

Trechos retirados de um dos capítulos da Tese:

 Um estudo das representações de professores do Ensino Fundamental I de escolas públicas e privadas sobre dislexia: entre os saberes teóricos e os desafios da ação pedagógica / Silvana Chatagnier Borges Perez; orientação Rita de Cassia Gallego. São Paulo: FEUSP, 2016.

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