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Crianças e adolescentes no TikTok: especialistas comentam riscos no uso do aplicativo

Crianças e adolescentes no TikTok: especialistas comentam riscos no uso do aplicativo

Sensação do momento entre os jovens, a rede social chinesa TikTok atrai cada vez mais o público infantil, que entra na plataforma seduzido pela possibilidade de mostrar os seus talentos e se tornar popular na comunidade.

Entre os mais de 500 milhões de usuários do aplicativo, cerca de 49% são adolescentes, acima dos 13 anos – idade mínima exigida para realizar o cadastro –, mas pesquisas mostram que há também um grande número de usuários entre 9 e 12 anos e mesmo abaixo dessa faixa etária. As crianças entram na rede por meio de contas criadas pelos pais ou por elas próprias, a depender da idade, para cantar, fazer dancinhas, brincadeiras, piadas ou mesmo mostrar os bichos de estimação.

Diferentemente do Instagram ou do Facebook, cujas postagens se baseiam principalmente em fotos e textos, o TikTok é uma rede social de vídeos de curta duração, entre 15 e 60 segundos. O nome do aplicativo, inclusive, tem relação com a rapidez dos clipes: a palavra TikTok é inspirada no tique-taque, barulho feito pelos ponteiros de um relógio, cujo termo também é usado para marcar ações em um espaço de tempo. Os recursos disponíveis de edição são um atrativo à parte para as crianças, ao permitir criar vídeos personalizados e divertidos, por meio de cortes nas imagens, efeitos de voz como o "megafone" e "robô", figurinhas como as carinhas de animais, filtros como o que deixa pontos iluminados na tela e músicas de fundo, entre muitas outras possibilidades. Além disso, é possível compartilhar, curtir, editar ou reproduzir conteúdo feito por outros "tiktokers", como são chamados os usuários da rede.

O aplicativo também se destaca pelo uso de inteligência artificial para selecionar o melhor conteúdo de acordo com as preferências do usuário. Assim, por meio do comportamento da criança na rede – quais vídeos ela curte, quanto tempo demora em cada um deles e quais passa rápido, sem visualizá-los –, os algoritmos da plataforma rapidamente entendem o gosto de cada pessoa, passando assim a oferecer conteúdos semelhantes, que dificilmente desagradam.

Ainda que tenha a missão de “inspirar criatividade e trazer alegria”, segundo divulgado pela própria empresa, especialistas ouvidas pela Canguru News ressaltam os riscos do mau uso dessa rede social, que já ultrapassou 2 bilhões de downloads em aparelhos ao redor do mundo, sendo o aplicativo mais baixado em 2020.

A lista de prejuízos às crianças pode incluir excesso de tempo dedicado às postagens em busca por aceitação e curtidas; danos à autoestima e autoconfiança; tendência a imitar, sem censura, comportamentos de perfis populares; e a desvalorização de atividades “off-line”, como o brincar e a conversa olho no olho com os amigos e familiares. Saiba mais a seguir.

Em tempo: o nome TikTok remete ao tique-taque, barulho produzido pelos ponteiros de um relógios e um termo para contagens regressivas e ação minuto a minuto.

Idade mínima de cadastro não é entrave para crianças entrarem no TikTok

Conforme já mencionado, a idade mínima para criar uma conta no TikTok é de 13 anos, segundo informado pela própria empresa, mas ao realizar o cadastro no aplicativo não há uma checagem aprofundada para averiguar a veracidade das informações cadastradas, caso a criança marque uma idade diferente da sua.

Segundo artigo divulgado no site da empresa no Brasil, escrito por Tracy Elizabeth, líder global de Políticas de Segurança para Menores do TikTok, a rede social desenvolveu um “portal de entrada, neutro e padrão que ao exigir a data de nascimento completa busca desencorajar as crianças a se cadastrarem na rede”. Tracy afirma que a plataforma também tem uma indicação de 12+ nas lojas para baixar aplicativos, “o que permite aos pais bloquearem seus adolescentes de fazer o download do aplicativo através de controles em seus dispositivos”.

A líder diz ainda que quando adolescentes começam a usar o TikTok, é restringido o acesso a algumas ferramentas intencionalmente, como LIVE e mensagens diretas. Em janeiro deste ano também foi alterado, de forma automática, a configuração das contas de usuários com idade entre 13 e 15 anos para privada como padrão. Sabe-se porem que essa configuração pode ser alterada pelo próprio usuário.

A psicóloga Andrea Jotta, do Janus, pesquisadora do Laboratório de Estudos de Psicologia e Tecnologias da Informação e Comunicação, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), diz que há muitas crianças de 3, 4 anos nos vídeos do Tiktok, em conteúdos publicados pelos pais ou responsáveis, e outras maiores que usam o aplicativo sozinhas. “Não é difícil encontrar pais e mães postando conteúdo dos filhos, e alguns desses conteúdos já com bastante engajamento. A gente já viu isso acontecer em menor número com o “boom” de youtubers mirins e vê agora acontecer também no TikTok. A partir dos 7, 8 anos, a criança tende a assumir a publicação dos posts por completo, sem pedir mais ajuda aos pais" comenta Andrea.

Pandemia criou o desafio de ensinar as crianças a estar “fora” de redes sociais como TikTok

Segundo a pesquisadora da PUC, é importante auxiliar a criança no uso e procurar saber o que ela faz na rede e com quem interage, sempre explicando que o número de curtidas e seguidores não deve ser o objetivo maior do uso da plataforma. “Esse acompanhamento tem de ser feito até que o filho dê indícios de que consegue usar a rede sem xingar ninguém, sem colocar a si e aos outros em perigo, sem fazer mal a ele mesmo e aos outros, ou seja, quando adquira maior autonomia para uso do aplicativo, o que acaba acontecendo a partir dos 12, 13 anos”, avalia Andrea.

A pesquisadora ressalta também que é preciso tomar cuidado com a importância que se dá às redes sociais.

“TROCAR DE ROUPA PARA APARECER NA TELA, DANÇAR PARA APARECER NA TELA, SER BONITO PARA TER SEGUIDORES, SE MAQUIAR MUITO CEDO – NADA DISSO É SAUDÁVEL”, DESTACA ANDREA JOTTA.

Se antes o consumo de eletrônicos era mais equilibrado, com a pandemia a situação mudou e cabe aos pais o desafio de habituar as crianças ao uso saudável desses dispositivos. “Se você não ensina seu filho a estar ‘off’, quando ele precisar estar ‘off’ por algum motivo ele vai sofrer e você vai sofrer com ele nesse embate. A questão não é afastá-lo, mas tampouco incentivá-lo, porque as tecnologias aparecem naturalmente”.

As referências que os pais dão também pesam muito no comportamento dos filhos. “O ser humano aprende por imitação e repetição, portanto, é essencial que a criança aprenda com os pais o valor de olhar no olho, cumprimentar, abraçar e estar em contato com os amigos, porque se você não ensinar isso agora, depois não poderá reclamar quando o seu filho só tiver amigos virtuais, só fizer contatos pela virtualidade. Foi o que você ensinou”, analisa Andrea.

A fragilidade dos jovens em fase de formação de identidade

Segundo estudo feito em escolas da Dinamarca, as crianças entre 9 e 12 anos são as mais ativas nessa rede social, utilizando-a para se expressar ou em busca de fama e número de curtidas em seus posts. O reconhecimento social, a aprovação dos amigos, ser bem visto e fazer novas amizades também são motivos que atraem esse grupo, de acordo com a pesquisa.

A mestre em psicologia positiva e colunista da Canguru News, Adriana Drulla, recorda que os jovens estão em uma fase de formação da identidade e é natural que queiram criar novos vínculos sociais fora da família e serem aceitos pelos amigos, mas é preciso tomar muito cuidado para que a opinião e aceitação do grupo na rede não ganhe uma importância maior do que deveria ter.

“Antes da existência das redes sociais, a gente precisava sair de casa e se relacionar com gente de carne e osso para sentirmos que éramos aceitos. Não ficávamos verificando o número de curtidas dos nossos posts, e agora isso acontece o dia inteiro, a criança fica checando quantos ‘likes’ teve a toda hora, comparando o seu perfil com os dos amigos”, diz Adriana. Além disso, a criança tende a buscar outros perfis populares e a querer se comportar como eles, como forma de ser aceita socialmente. “E o problema é quando ela consegue isso, aí é que é ela estará em problemas, pois entra no ciclo de querer sempre mais likes, passando a imitar aquilo que é aceito, sem muita censura se o que faz é bom ou ruim”.

A mestre em psicologia positiva recorda outra pesquisa realizada por neurocientistas da Universidade da Califórnia, que observou a reação de adolescentes enquanto viam fotos que supostamente eram do Facebook. O estudo constatou que quando os adolescentes viam fotos com muitos likes, áreas do cérebro relacionadas à memória, imitação e reforço de comportamento ficavam mais ativas. Quando as fotos com muitos likes envolviam comportamentos como fumar maconha ou beber, havia uma redução de atividade na área cerebral relacionada ao controle de impulsos. 

“Como as crianças não têm identidade formada nem mesmo uma grande capacidade de inibição de comportamento e buscam  aprovação social, em redes sociais como o TikTok elas são muito mais vulneráveis aos riscos da imitação sem censura em comparação aos adultos, podendo prejudicar também a sua autoimagem e autoestima”, relata Adriana.

Nos Estados Unidos, dados mostram que os casos de automutilação aumentaram muito a partir de 2009, quando os adolescentes passaram a usar as redes sociais em massa. “Em 2015, as internações por automutilação de pré-adolescentes quase duplicaram, cresceram 190%, e o numero depressão subiu 60%”, relata Adriana. Ela explica que o grupo mais impactado foi o das meninas, entre 9 e 13 anos, pois elas se comparam socialmente mais do que os meninos.

“ENTRE MULHERES, AS EXIGÊNCIAS SOCIAIS A RESPEITO DA IMAGEM FÍSICA SÃO MUITO MAIS SEVERAS DO QUE NOS HOMENS, E O USO EXCESSIVO DAS REDES SOCIAIS FAZ COM QUE ESSAS MENINAS JOVENS TENHAM COMO PARÂMETRO AMIGAS QUE APARECEM EM IMAGENS TRATADAS, QUE BUSCAM ESCONDER IMPERFEIÇÕES”, COMENTA ADRIANA.

Meninas se sentem pressionadas a editar e manipular fotos para redes sociais, diz estudo

Uma pesquisa que observou o impacto do uso das redes sociais e filtros na autoestima de meninas, revelou que elas se sentem pressionadas a editar e manipular suas fotos para as mídias sociais, usando filtros que modificam o rosto e aplicativos de edição de imagem. O estudo realizado em dezembro de 2020 pelo Projeto Dove pela Autoestima aponta que esses filtros e aplicativos mudaram drasticamente a forma como as meninas interagem com suas imagens corporais e sua autoexpressão.

A análise foi feita com meninas entre 10 e 17 anos nos Estados Unidos, Inglaterra e no Brasil. Aqui, ouviu 503 meninas de 10 a 17 anos e 1.010 mulheres de 18 a 55 anos. Segundo o estudo, 84% das brasileiras com 13 anos já aplicaram um filtro ou usaram um aplicativo para mudar sua imagem em suas fotos. Além disso, 78% delas tentam mudar ou ocultar pelo menos uma parte ou característica de seu corpo que não gostam antes de postar uma foto de si mesmas das redes sociais. 

ESSA "AUTO DISTORÇÃO DIGITAL" DA APARÊNCIA RESULTA EM TENTATIVAS DE ATENDER A PADRÕES IRREAIS DE BELEZA, DESTACA O ESTUDO.

Cerca de 89% das jovens relatam que compartilham selfies na esperança de receber validação de outras pessoas. Esses padrões não podem ser alcançados na vida real, o que gera um impacto duradouro e prejudicial na autoestima e confiança corporal dessas meninas, ressalta a investigação. Ver fotos de influenciadores/celebridades nas redes sociais também faz com que as meninas se sintam "menos bonitas" – 35% das brasileiras afirmaram se sentir assim.  

Limite de tempo da rede: uma oportunidade para a autorregulação

Para Adriana Drulla, é importante limitar o tempo de uso de redes como o TikTok e supervisionar as crianças de modo a evitar que consumam conteúdos impróprios e façam amizades com desconhecidos. “Eu aconselho aumentar o repertório da criança em relação à tecnologia. Não é porque todos ou a maioria dos amigos estão nas redes que eu vou ter que deixar meus filhos estarem também. Se todo mundo começar a fazer algo que é prejudicial eu não vou deixar, e isso, de certa forma, é um jeito de ensinar as crianças que certos comportamentos precisam ser questionados. A criança pode ficar brava com todo direito, mas deve entender que é para o seu bem”.

Dicas para ajudar as famílias na educação digital: 

pesquisa “Crianças Digitais” mostra que 49% das crianças brasileiras usaram um dispositivo eletrônico pela primeira vez antes dos seis anos de idade e 72% delas ganharam o próprio smartphone ou tablet antes de completar 10 anos. O estudo também afirma que 56% das crianças brasileiras têm conta em alguma rede social, sendo que 42% delas acessam essas contas sozinhas ou com senhas próprias. A seguir, veja dicas para os pais para garantir que as crianças usem a internet de modo seguro e saudável. As orientações são da Kaspersky, empresa especializada na produção de softwares de segurança para a internet.

• Estabeleça um diálogo sobre os perigos da internet com os seus filhos. 

• Participe das atividades online de seus filhos desde cedo como um "mentor". Pergunte sobre suas experiências online e, em particular, se teve algo que o (a) fez sentir desconfortável ​​ou ameaçado (a), como assédio ou aliciamento. 

• Defina regras simples e claras sobre o que eles podem fazer na internet e explique o porquê. Muito importante, as regras devem valer para todos que vivem na casa, como não usar o celular nas refeições. 

• Recursos de controle parental aumentam a segurança no uso nas redes sociais como Intagram, Facebook e TikTok, pelas crianças. No geral, essa solução permite bloquear conteúdos inapropriados, mensagens de spam e ajudar a acompanhar as regras predefinidas de uso da internet.

Leia também:
Confira mais dicas para as configurações de privacidade e segurança no Instagram e no Tik Tok

 

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