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Mais doce que bolo de chocolate

Mais doce que bolo de chocolate

A miúda não passava dos 4 anos. O asfalto aquentava-se com as suas persistentes lágrimas. Por outro lado, a calça comprida já não degelava as pernas, que repousavam no chão. A sombra do pai, a seu lado, imóvel, intensificava a composição dramática.

A julgar pela expressão inabalável do pai, desconfio que o episódio não é inédito, sequer praquele dia. A motivação seria a mesma da gritaria que atordoou a vizinhança no último domingo? Enquanto me banhava tranquilamente, antes da missa dominical, fui compelida a sapear pela janela, para ter diante dos olhos a pequena criatura empurrando a mãe, bradando que aquilo não era justo. Voltei para o chuveiro. A estiagem não me permitia cuidar da vida do vizinho. Mas aquilo, pouco mais tarde, soube que se tratava do presente dado pelo avô para a irmã mais nova, ainda na barriga.

Será que dessa vez foi o abençoado pai que teve a ideia de beijar a protuberância da esposa? Será que ele tocou no santo nome da bebê em vão durante o jantar?

Noto que o já surrado tênis amarelo atrita com o plano. Não resta dúvidas de que a indignação é grande. O quarto novo da caçula deve ter ficado muito mais bonito. A pequena interrompe o lamento e, com a mesma sutileza do badalo de um sino, espia, observa a feição do pai, ainda estático. Logo, retoma a ladainha.

- E-u não que-ro co-meeeeer!

Imediatamente, meu coração acelera. Franzo a testa. Mordo o lábio. Não é que me importe com a nutrição alheia. Acontece que fui absorvida por uma máquina do tempo e viajei. Eu, era eu! Eu gritei tantas vezes por justiça. Eu questionei a hora do jantar. Eu me esparramei, tantas vezes, no chão gelado. Mas, ah, há 30 anos... “para com isso criança mimada”. “Quando você crescer, vai comer o que quiser”. “Não vai comer? Vai passar fome”. “Aqui quem manda sou eu.”

Então, silenciosamente, o pai se move em direção à menina, levanta o braço direito, abre a mão e eu salto da cadeira. Preciso socorrer essa criança, padeço por ela. Mas antes que meu corpo corresponda ao estímulo de se mover em direção à porta, vejo que a grande mão pesa suavemente no ombro da criança. Ele se agacha e procura pelos pequenos olhos de jabuticaba. Ela imediatamente se vira, levanta e o abraça.

Mais longo do que uma homilia, o perfeito enlace contém o pranto. Apenas murmúrios são ouvidos agora. Eu nem pisco. Acompanho, ainda incrédula. Uma sensação de angústia me toma, um frio na barriga.

Enquanto as mãos dele tocam os pequeninos braços, as cabeças assentem. Não posso mais acompanhar o episódio. Apenas o que meus olhos marejados veem é a procissão dos dois em direção à porta. Ela ainda soluça, ele apenas a acompanha.

Cerram a porta. Em estado melancólico, passo alguns segundos lucubrando. Penso no doce bolo de chocolate que está há dias na geladeira. Ele há de me ouvir. E de me abraçar. E de preencher esse vazio que me esgota. Que assim seja, amém!

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