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A grana ficou mais curta? Saiba como falar sobre o assunto com as crianças

A grana ficou mais curta? Saiba como falar sobre o assunto com as crianças

A pandemia do coronavírus, considerada pelo Organização Mundial de Saúde "a maior crise sanitária de nossa época", impactou fortemente a economia brasileira, levando a um aumento do desemprego e fechamento de empresas, entre tantos outros prejuízos. Muitas pessoas foram pegas de surpresa, sofrendo redução de salário ou tendo de encarar uma demissão em meio a este período turbulento para o país e o mundo. Para fazer as contas caberem no orçamento, diversas famílias tiveram de repensar as despesas da casa, inclusive os gastos relacionados às crianças, levando a cortes nos custos considerados menos importantes. Porém, além de reduzir gastos é preciso explicar aos filhos o porquê dessas mudanças nos hábitos de consumo. "Sempre é difícil quando você precisa falar "não". O pai sente dor ao ter de negar pedidos dos filhos que antes podiam ser realizados, mas às vezes isso se faz necessário", explica Reinaldo Domingos, especialista em educação financeira e idealizador do canal Dinheiro à vista, de São Paulo.

Para o mineiro Carlos Eduardo Costa, colunista da Canguru News e autor do livro "Meu Dinheirinho", que trata da educação financeira para crianças, uma aula sobre economia não é o melhor caminho para explicar aos pequenos o que está acontecendo. "Elas não têm como compreender conceitos como queda da renda, custos fixos, queda do nível de atividade econômica ou recessão. De nada adiantará, também, simplesmente externalizar toda a insatisfação com os rumos da pandemia. Há um limite de maturidade e de compreensão da realidade que impede que as crianças compreendam o assunto, o que pode ser agravado quando são tratados com hostilidade. É importante traduzir todos estes acontecimentos mostrando claramente quais serão os impactos no dia a dia da família. E isso é uma oportunidade de introduzir o tema de finanças para todos os membros da casa", relata Carlos Eduardo.

Tipos de orçamentos familiares

Reinaldo Domingos aconselha aos pais a indentificarem o real orçamento da casa. Já que a conversa com os pequenos dependerá do nível de saúde financeira da família. Ele lista quatro perfis de orçamentos familiares mais comuns nos lares brasileiros:

  1. Investidor: a familia tem reservas e sempre guardou dinheiro. Para ele, essa família representa "aquela caixa d'água que está cheia e que você pode utilizá-la, caso venha faltar água". O perfil investidor é a mesma coisa, ele tem uma reserva financeira. Por isso, a forma de conversar com a criança é um pouco diferente.
  2. Em equilíbrio: não tem dívidas nem compromisso com terceiros, mas também não tem reservas. "É aquela família que sempre ganhou e gastou tudo", resume o especialista.
  3. Endividado: trata-se da família que está com um endividamento controlado. Os pais ganham, gastam e têm prestações que conseguem pagar. Então, estão equilibrados, mas com dívidas.
  4. Super endividado: "esse é um quadro um pouco mais complicado, pois é a família que não tem reservas, que já perdeu o controle das dívidas e que não está pagando em dia", explica Reinaldo. Ou seja, os pais estão inadimplentes e provavelmente estejam com os nomes negativados no comércio.

Conversa franca sobre o assunto

Independentemente da situação financeira da família, é essencial que haja uma conversa com todos da casa - inclusive as crianças – para falar sobre as dificuldades nas finanças enfrentadas no momento. "As crianças entendem as coisas de uma maneira mais simples e lógica do que os adultos, por isso é importante que a educação financeira esteja sempre presente na vida deles, desde pequenos, de uma forma natural", diz Simone Sgarbi, especialista em organização financeira pessoal do Investir, eu?

Carlos Eduardo acredita que o melhor é explicar as mudanças na rotina. Medidas concretas como suspensão de atividades extracurriculares ou cortes no plano de TV por assinatura devem ser anunciadas. Ele diz que frustrações podem ocorrer, e é preciso aceitar que as crianças protestem. "O importante nesse momento é que elas saibam que seu sofrimento está sendo reconhecido pelos pais e que contam com a sua compreensão. Isso pode ajudar, inclusive, na preparação para o futuro", comenta o especialista. Ele cita outra educadora financeira, Cássia D’Aquino, que diz que as crianças conseguem lidar com a desistência de férias ou o corte da TV a cabo, ainda que chorem ou fiquem irritadas, mas se os pais estiverem perdidos no meio da situação, elas também se sentirão confusas. Cumprir o que foi determinado, portanto, é fundamental. "Não adianta falar em reduzir os gastos e continuar pedindo comida fora. Isso pode confundir as crianças", pontua o colunista.

A seguir, confira um passo a passo de como realizar a conversa com as crianças, em casa, de forma simples e fácil. "O objetivo da reunião será falar sobre os sonhos de cada um e depois os desejos coletivos da família", elucida Reinaldo. Para ele, essa conversa não deve desanimar a todos nem provocar a desistência de seus objetivos. "A reunião funcionará como um agente motivador para a casa", ressalta.

Como falar com os filhos sobre o orçamento da família

  1. Organize o ambiente e convide a todos para um bate-papo. Caso sinta necessidade, pode preparar a mesa com alguns pratos e bebidas que a família goste. Esse momento é muito importante, por isso também deve ser o mais confortável e agradável possível.
  2. Peça para todos os integrantes da família elencarem seus maiores sonhos. Depois, selecione os maiores desejos coletivos da família. A partir disso, separe os três maiores desejos individuais por ordem de importância de cada um. Faça a mesma coisa com os sonhos da família. Lembrando que eles podem ser de qualquer origem: uma viagem, um video game novo, ou até mesmo, a televisão da casa.
  3. Defina o valor de cada sonho. Chegou a hora de dizer para a criança quanto custa cada um daqueles sonhos, mesmo que ela ainda não conheça muito bem os números, é importante contar para ela se aquela ideia custa muito ou pouco dinheiro.
  4. Explique para a criança de onde vem o dinheiro. Conte para ela a origem do dinheiro que você e seu parceiro recebem. Exponha que é preciso trabalhar algumas horas por dia para que no fim do mês vocês possam receber o que dinheiro que mantém a casa.
  5. Descreva o contexto da pandemia. Agora, informe como a pandemia afetou o orçamento da casa. Pode ser que vocês precisaram diminuir as horas de trabalho e, por isso, estão recebendo um salário menor agora. Ou pode ser que um dos adultos parou de trabalhar, o que também gerou uma redução no orçamento familiar. enfim, seja qual for o motivo, o importante é tentar explicar de forma simples qual a situação econômica atual da família.
  6. Mostre quais as despesas da casa que consomem dinheiro. Para que tudo faça sentido, a criança precisa entender o motivo que faz o dinheiro ser tão importante. Por isso, explique para ela tudo na casa que precisa ser pago com dinheiro: energia, internet, água, comida, brinquedos, roupas, calçados, mensalidade da escola...
  7. Para que os sonhos de todos sejam realizados é preciso economizar dinheiro. Por fim, ensine que para ela ter aquele tão sonhado video game novo, é preciso ajudar a economizar em casa. E isso pode acontecer de diversas maneiras: deixando de comprar certos produtos no mercado, diminuindo a quantidade de água usada em casa ou cancelando alguma assinatura quem ninguém utiliza.

Use jogos para explicar os novos combinados

A conversa familiar funciona como um agente motivador, que faz a criança ter vontade de ouvir. Quando ela quer escutar, ela também tem vontade de participar da conversa e está muito mais aberta a colaborar com o que for conversado. Além disso, Reinaldo indica que nem todos os gastos com a criança sejam cortados. "Para os pais pode parecer um gasto supérfluo, mas para a criança é essencial", reforça o especialista. Ele também reitera que a criança precisa se sentir motivada a participar e colaborar para que a família possa superar as dificuldades financeiras. Nessas horas, os pais devem estar atentos aos principais desejos dos filhos, para que possam convidá-los para a ação de economizar. "Então filho, para você continuar jogando, a gente vai precisar fazer todas essas economias em casa, o que você acha?", exemplifica Reinaldo.

Outra forma lúdica de explicar para a criança as dificuldades financeiras da família durante a pandemia é por meio de jogos. "Você pode usar jogos de tabuleiros e eletrônicos que envolvam a relação de recompensa para inserir o tema na conversa, assim traz o assunto para mais perto da realidade da criança, facilitando com que entenda as regras do combinado", sugere Simone. Ou seja, quanto mais próximo o assunto estiver da realidade infantil, melhor será o entendimento dela sobre as condições da família.

Seja exemplo

Independentemente das escolhas decididas pela família, é importante ter em mente que os pequenos têm os pais como exemplo. "Os pais são referências para os filhos, ocorre que cada família deve ter seus valores, mas mesmo assim é necessário cuidado. Se a criança vê os pais comprando sem parar, vão tender a seguir esse exemplo e acabar ficando desta forma. Assim, é fundamental ter muito cuidado com o exemplo que os familiares passam, e desde cedo demonstrar que a felicidade não está associada ao consumismo desenfreado e sim na atitude de atingir seus objetivos", finaliza Reinaldo.

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